O Estado
moderno surgiu da desintegração do mundo feudal e das relações políticas até
então dominantes na Europa. No período medieval, o poder estava nas mãos dos
senhores feudais, que mantinham o controle sobre a maior parte das terras e
sobre toda a sociedade.
Esse tipo de
dominação foi pouco a pouco sendo minado pelas revoltas sociais dos camponeses,
pela recusa ao pagamento de impostos feudais e pelo crescimento das cidades e
do comércio, que apressou a desagregação dos feudos. Paralelamente, a partir do
século XIV, ocorreu um processo de centralização e concentração:
● Das Forças
Armadas e do monopólio da violência;
● Da estrutura
jurídica, isto é, dos Juízes e dos tribunais em várias instâncias;
● Da cobrança
de impostos - um signo do poder e, ao mesmo tempo, o meio de assegurar a
manutenção das Forças Armadas, da burocracia e do corpo jurídico;
● De um corpo
burocrático para administrar o patrimônio público, como as estradas, os portos,
o sistema educacional, a saúde, o transporte, as comunicações e outros tantos
setores.
A
centralização e a concentração desses poderes e instituições caracterizam o
Estado moderno, que assumiu diferentes formas até hoje.
O Estado absolutista

Assumindo o
controle das atividades econômicas, o Estado intervinha nas concessões dos
monopólios, fixava preços e tarifas, administrava a moeda e os metais
preciosos. O acúmulo desses "bens" era a expressão máxima da riqueza
de um país. O Estado absolutista assumia também a responsabilidade de
centralizar e praticar a justiça e de cuidar do contingente militar, criando
exércitos profissionais. Para financiar essas atividades, foram criados os
impostos gerais.
O absolutismo
colocou frente a frente os interesses dos estamentos feudais dominantes (a
nobreza e o clero) e os da burguesia, a classe em ascensão naquela época. Tais
interesses eram referentes à justiça, à administração do patrimônio público e à
administração econômica.
O Estado liberal
O liberalismo
emergiu no século XVIII como reação ao absolutismo, tendo como valores
primordiais o individualismo, a liberdade e a propriedade privada. Ganhou
projeção como adversário da concentração do poder pelo Estado, principalmente
no que dizia respeito às atividades econômicas, no contexto do chamado
capitalismo concorrencial. Nessa fase do capitalismo, os resquícios feudais
foram sendo extintos, enquanto o capital industrial se implantava e o trabalho
assalariado tornava-se fundamental para o desenvolvimento da indústria.
O Estado
liberal apresentava-se como representante de toda a sociedade, tendo o papel de
"guardião da ordem": não lhe caberia intervir nas relações entre os
indivíduos, mas manter a segurança para que todos pudessem desenvolver
livremente suas atividades. Com o Estado liberal, estabeleceu-se a separação
entre o público e o privado.
Politicamente,
o Estado liberal se fundamenta na idéia de soberania popular. A expressão mais
clara dessa idéia se encontra nas constituições liberais, como a do Brasil, na
qual se lê, no artigo: "Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio
de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição".
Isso significa que, numa eleição, os votantes se pronunciam elegendo os
representantes da vontade popular. O Parlamento é, assim, a instituição central
do Estado liberal.
De acordo com
o pensamento liberal, o Estado não deve intervir nas atividades econômicas. A
famosa fórmula laissez-faire, laissez-passer ("deixai fazer, deixai
passar") expressa bem a concepção de que as atividades econômicas não
devem ser reguladas pelo Estado, mas por si mesmas, ou seja, pelo mercado - a
mão invisível, de acordo com Adam Smith (1723-1790). A plena liberdade para a
produção e a circulação de mercadorias garantiria, conforme o pensamento
liberal, o progresso das empresas e das nações, contribuindo até para a paz
mundial.
Essas
concepções do pensamento liberal começaram a ruir no final do século XIX e
caíram definitivamente por terra com a Primeira Guerra Mundial (19141918).
Isso aconteceu porque a intensa concorrência entre as empresas foi provocando o
desaparecimento das pequenas firmas, que faliam ou eram compradas pelas
maiores. A concentração ficou tão grande e o capital na mão de tão poucos que
a concorrência passou a ser entre países, e não mais só entre empresas.
A
"guerra" de mercado chegou às vias de fato, ou seja, transformou-se
numa guerra de verdade entre os países. As crises econômicas se tornaram
freqüentes e a competição entre as nações ficou ainda maior. A eclosão da
Primeira Guerra teve origem nessas disputas entre as nações européias.
Os Estados nacionais no século XX
O Estado
fascista e o Estado soviético: No começo do século XX, esgotado
pelas próprias condições sociais e econômicas que o geraram, o Estado liberal
não dava mais conta da realidade e das interesses da burguesia. A partir da
Primeira Guerra Mundial, surgiram duas novas formas de organização estatal: o
Estado fascista e o Estado soviético.
O Estado
fascista foi organizado nas décadas de 1920 e 1930, primeiro na Itália e depois
na Alemanha (com o nazismo) e em vários países europeus, com pequenas
diferenças. O Estado soviético decorreu da primeira experiência socialista,
iniciada em 1917, na Rússia. Por meio dela procurava-se fazer frente às
condições precárias de vida das classes trabalhadoras. É bom lembrar que as
idéias socialistas já estavam presentes em toda a Europa havia mais de meio
século e se concretizavam naquele momento com a Revolução Russa. '
O que
distinguia basicamente os regimes fascista e soviético, no início, era o
projeto político que cada um apresentava. No Estado fascista, a participação
política significava plena adesão ao regime e a seu líder máximo, ou seja,
ninguém podia fazer qualquer crítica ou oposição ao governo. Na Rússia
pós-revolucionária, o desafio era criar mecanismos efetivos de participação dos
camponeses, operários e soldados, desde que fossem organizados no interior do
Partido Comunista, que era a estrutura política dominante.
Essas duas
forças políticas se confrontaram durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).
No final do conflito, os vitoriosos dividiram-se em dois blocos: o socialista,
liderado pela União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), e o
capitalista, sob o comando dos Estados Unidos. Os dois haviam se aliado para
participar da guerra e da derrocada do fascismo-nazismo.
A URSS
organizava-se como um Estado planificado e centralizado, cujos órgãos estavam
ligados ao Partido Comunista. Não havia possibilidade de participar
politicamente se não fosse nesse partido, pois somente ele era permitido.
Vários outros
países da Europa adotaram essa forma de organização do poder: Polônia, Hungria,
Iugoslávia, Tchecoslováquia e a chamada Alemanha Oriental. Fora da Europa,
outros Estados socialistas foram criados mediante processos revolucionários,
como a China continental (1949) e Cuba (1959), adotando o regime socialista
proposto pelo modelo de Estado soviético.
Com o processo
de globalização crescente e em decorrência de problemas internos, a partir de
1985 a URSS entrou em processo de dissolução. O Estado soviético começou a
ruir nos países que o adotavam. A queda do Muro de Berlim, em 1989, assinalou
de modo emblemático o fim do Estado soviético e o questionamento do poder
concentrado num só partido. Essa forma de organização estatal continua vigente,
com variações, em Cuba, no Vietnã, na Coréia do Norte e na China, com a
manutenção de um partido único e a planificação central da economia.
O Estado do
Bem-estar social.
O bloco dos países capitalistas, após a Segunda Guerra Mundial, tentou
reconstruir a economia ocidental com novas bases. Disseminou-se então a forma
de organização estatal chamada de Estado do bem-estar social ou simplesmente
Estado social. Esse modelo permitia enfrentar, por um lado, os movimentos de
trabalhadores que exigiam melhores condições de vida e, por outro, as
necessidades do capital, que buscava alternativas para a construção de uma nova
ordem econômica mundial diante do bloco socialista.
As bases
teóricas do Estado do bem-estar foram apresentadas na década de 1930 pelo
economista inglês John Maynard Keynes (1883-1946), em seu livro Teoria geral do
emprego, do juro e da moeda (1936). Como forma de organização estatal, a
teoria começou a ser esboçada quando o governo estadunidense estabeleceu
políticas para sair da profunda depressão desencadeada pela crise de 1929. No
período posterior à Segunda Guerra Mundial, ela se consolidou nos Estados
Unidos e em boa parte dos países da Europa.
O Estado do
bem-estar tinha como finalidade e característica básica a intervenção estatal
nas atividades econômicas, regulando-as, subsidiando-as, executando grandes
investimentos e obras, redistribuindo rendimentos, visando sempre, pelo menos
teoricamente, ao bem-estar da maioria da população. A idéia era romper com o
centenário princípio do liberalismo, que rejeitava qualquer função
intervencionista do Estado.
Com base nesse
conceito, os capitalistas modernos propunham moradia digna, educação básica
pública, assistência à saúde, transporte coletivo, lazer, trabalho e salário,
seguro-desemprego, enfim, um mínimo de bem-estar econômico e social. Isso foi
feito com investimentos maciços por parte do Estado, que redimensionava suas
prioridades para proporcionar trabalho e algum rendimento à maior parte da
população, a fim de que ela se tornasse consumidora e, assim, possibilitasse a
manutenção da produção sempre elevada. Configurou-se o que alguns chamam de
"cidadania do consumidor", ou seja, a cidadania entendida como um
mecanismo de mercado.
Enquanto isso,
nos países periféricos, como os da América Latina, o que se viu foi uma
variedade de formas governamentais, entre as quais as ditaduras que se
implantaram por meio de golpes militares. Esses golpes eram deflagrados como se
fossem constitucionais, isto é, como se estivessem de acordo com a lei. Uma vez
no poder, os golpistas exerciam todo o controle sobre os indivíduos e os grupos
organizados da sociedade.
O
chamado Estado neoliberal

Os analistas,
tendo como referência os economistas Friedrich Von Hayek (1899-1992) e Milton
Friedman (1912-2006), atribuíam a crise aos gastos dos Estados com políticas
sociais, o que gerava déficits orçamentários, mais impostos e, portanto,
aumento da inflação. Diziam que a política social estava comprometendo a
liberdade do mercado e até mesmo a liberdade individual, valores básicos do
capitalismo. Por causa disso, o bem-estar dos cidadãos deveria ficar por conta
deles mesmos, já que se gastava muito com saúde e educação públicas, com
previdência e apoio aos desempregados idosos. Ou seja, os serviços públicos
deveriam ser privatizados e pagos por quem os utilizasse. Defendia-se assim o
Estado mínimo, o que significava voltar ao que propunha o liberalismo antigo,
com o mínimo de intervenção estatal na vida das pessoas.
Nasceu dessa
maneira o que se convencionou chamar de Estado neoliberal. As expressões mais
claras da atuação dessa forma estatal foram os governos de Margareth Thatcher,
na Inglaterra, e de Ronald Reagan, nos Estados Unidos. Mas mesmo no período
desses governos o Estado não deixou de intervir em vários aspectos, mantendo
orçamentos militares altíssimos e muitos gastos para amparar as grandes
empresas e o sistema financeiro. Os setores mais atingidos por essa "nova"
forma de liberalismo foram aqueles que beneficiavam mais diretamente os
trabalhadores e os setores marginalizados da sociedade, como assistência
social, habitação, transportes, saúde pública, previdência e direitos
trabalhistas.
Os neoliberais
diziam que era necessário ter mais rapidez para tomar decisões no mundo dos
negócios e que o capital privado precisava de mais espaço para crescer.
Reforçavam assim os valores e o modo de vida capitalistas, o individualismo
como elemento fundamental, a livre iniciativa, o livre mercado, a empresa
privada e o poder de consumo como forma de realização pessoal.
Com essas
propostas, o que se viu foi a presença cada vez maior das grandes corporações
produtivas e financeiras na definição dos atos do Estado, fazendo com que as
questões políticas passassem a ser dominadas pela economia. Além disso, o que
era público (e, portanto, comum a todos) passou a ser determinado pelos
interesses privados (ou seja, por aquilo que era particular).
O
neoliberalismo e o Estado neoliberal
O neoliberalismo
compreende a liberação crescente e generalizada das atividades econômicas,
compreendendo a produção, distribuição, troca e consumo. Funda-se no
reconhecimento da primazia das liberdades relativas às atividades econômicas
como pré-requisito e fundamento da organização e funcionamento das mais diversas
formas de sociabilidade; compreendendo não só as empresas, corporações e
conglomerados, mas também as mais diferentes instituições sociais.
"Neo" liberalismo porque se impõe e generaliza em escala mundial,
alcançando inclusive os países nos quais se havia experimentado ou continua a
experimentar-se o regime socialista ou o planejamento econômico centralizado.
Sob o neoliberalismo, reforma-se o Estado. O poder estatal é liberado de todo e
qualquer empreendimento econômico ou social que possa interessar ao capital
privado racional e transnacional. Trata-se de criar o "Estado
mínimo", que apenas estabelece e fiscaliza as regras do jogo econômico,
mas não joga. Tudo isso baseado no pressuposto de que a gestão pública ou
estatal de atividades direta e indiretamente econômicas é pouco eficaz, ou
simplesmente ineficaz. O que está em causa é a busca de maior e crescente
produtividade, competitividade e lucratividade, tendo em conta os mercados
nacionais, regionais e mundiais. Daí a impressão de que o mundo se transforma
no território de uma vasta e complexa fábrica global, ao mesmo tempo em que
shopping center global e Disneylândia global. IANNI, Octávio. Capitalismo, violência e
terrorismo.
Estado
e liberdade
Depois que nos
livrarmos do preconceito de que tudo o que faz o Estado e a sua burocracia é
errado, malfeito e contrário à liberdade, e de que tudo o que é feito pelos
indivíduos particulares é eficiente e sinônimo de liberdade - poderemos
enfrentar adequadamente o verdadeiro problema. Reduzido a uma só frase, o
problema consiste em que, em nosso mundo moderno, tudo é político, o Estado
está em toda parte e a responsabilidade política acha-se entrelaçada em toda a estrutura
da sociedade. A liberdade consiste não em negar essa interpenetração, mas em
definir seus usos legítimos em todas as esferas, demarcando limites e decidindo
qual deve ser o caminho da penetração, e, em última análise, em salvaguardar a
responsabilidade pública e a participação de todos no controle das decisões.
1- Como o Estado se mostra presente em
seu cotidiano? Dê exemplos e reflita: a presença do Estado é necessária nestas
situações? Por quê?
2- Você acredita que a iniciativa
privada poderia desenvolver atividades na área de educação, saúde, segurança,
transporte e habitação, de modo que todos tivessem acesso a serviços de boa
qualidade, sem a presença do Estado?
Por: Prof. Manuel Raposo
Fonte
(Transcrição Literal): TOMAZI, Nelson Dacio. Sociologia para o ensino
médio. Vol.único (Manual do Professor). 2 ed. Editora. SARAIVA. São Paulo. 2010.
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